nas ruas do pensar
há um labirinto
é fácil se perder
em suas paredes
e vãos
anda-se muito
para não chegar a lugar algum
é sempre esse estado de ir
e ir
e ir
e ir....
mover-se muito
sem de fato sair.
(jm)
em 05-01-2021.
nas ruas do pensar
há um labirinto
é fácil se perder
em suas paredes
e vãos
anda-se muito
para não chegar a lugar algum
é sempre esse estado de ir
e ir
e ir
e ir....
mover-se muito
sem de fato sair.
(jm)
em 05-01-2021.
sou a onda
perto do mar que desconheço...
me movendo rápida
pra fora,
enquanto forças me chamam
de volta
pra dentro.
(jm)
em 03-01-2021.
é tudo fragmento
é e somos
fragmentos
de sonhos
fragmentos
de gentes.
fragmentos
das histórias
e geografias
familiares
que se alimentaram
de sangue
lágrimas
suor
e gozo.
a vida é um fragmento
é líquida.
se vem
e se esvai
aos goles.
(jm)
em 03-01-2021.
os rastros
são ratos
e se multiplicam
amnésia não é opcional
'parado' não existe
respiração é movimento
o tempo rege
tudo é vestígio,
(jm)
rascunho de 18-10-2021
o que há pra esconder
que neste branco não posso contar?
tento pensar com a caneta junto
registrando
e pouco filtrar
dentro sou muitas,
fico sempre na dúvida
de quem está a falar...
(jm)
|2020|
Certa em fazer tanta exigência
e em questionar o que você me faz.
Você bem sabe o que é consciência,
não vem dizer que nasceu incapaz
Você só quer folga e limpeza,
tudo que você suja me traz?
Ai meu Deus, quem conhece a Amélia?
Aquela sim é que é prafrentex
As vezes tinha a peixeira do lado
E achava bonito não ter o que temer
e quando via alguém contrariado
dizia: e aí, o que ce vai fazer?
Amélia gostava do corpo e da idade
Amélia vivia feliz de verdade
É, você só quer folga e limpeza
tudo que você suja me traz?
Ai meu Deus me apresenta a Amélia
Aquela sim é que é prafrentex
Amélia gostava do corpo e da idade
Amélia vivia feliz de verdade!
por Janaína Moitinho
***
exercício/paródia feita pro Ateliê de Escrita: Poesia de Luta na América Latina com Jeff Vasques pelo Sesc Campinas, maio/2021.
* " Ai! que saudade da Amélia" - música original composta por Mário Lago e Ataulfo Alves.
***
mergulho nas dobras do tempo
assistindo quem fui
nos tantos encontros solares
na superfície do agora
um choque de temperaturas
e o alarme das faltas
nesse cenário que arde
mergulho de novo
e de novo
pois só o movimento cura
e a esperança viva há de ser bálsamo e milagre.
(jm)
17/03/2021
_ 1 ano em isolamento _
o corpo vivo
sangrando em excesso
pede socorro
o corpo aparentemente vivo
morde toda esperança
que vê
alimento pouco para
não se partir
corpo que nada cabe
corpo que nunca coube
corpo que se vende adulto
em flash, passo
porte e casca
mas por dentro infante
perdido chora
sem colos, risos
nem rumos
corpo que tanto se empresta
se esforça
se curva
se aperta
corpo que não sonha
porque não dorme
corpo cansaço de luta muita
clama festa de almas e luzes
a dançar
corpo corpo corpo
corpo disparadeiro
corpo mar
corpo onda
inundação
corpo tão nu
corpo meu
corpo sagrado
que carrego
corpo de quem ora
aterra
banha
geme
e abraça
(jm)
out/2020
ter a interdição como companheira da vida
na infância por justificativa da responsabilidade ausente
na juventude por alegada falta de independência e juízo
na vida adulta, com todos os requisitos anteriores
falta energia, saúde, rebeldia e vontade.
somos o ser que se esquece a que veio.
vivemos pra reproduzir caminhos já idos
dos nossos que tanto já se cansaram
pegar o bastão deixado
e correr
obedecer
amansar
se conformar
pra pagar o teto e não morrer de fome.
esperando o próximo
que chega
assume o bastão
e também se vai.
(jm)
na tormenta do agora
o invisível se mistura
e grita os segredos que tanto guardava
seu ouvido não absorve os ruídos que se multiplicam
e bagunçam o entendimento
que nunca existiu
os corpos rodopiam
nos planos confusos
e sem donos
sonhando outras realidades
certezas vividas em visagens
tudo é caos
negação
e súplica
mesmo os que acreditam na força divina
sabem que isso não é mais um teste
uma mera prova de aptidão aos encarnados
mas o fim
o ruir
de tudo
o vazio que se encheu
de nós
(jm)
Era uma vez, Maria.
Mulher adulta tomada de euforia e ansiedade por uma notícia recente.
Desde então, Maria passava muitas horas lembrando da menina que foi.
Pensava também nas infâncias dos cinco filhos, hoje já grandes.
Nesse passeio com as memórias, lembrou-se das bonecas que tinham. Avistou a cena da primogênita ainda infante, chorando copiosamente dizendo que havia nascido com a cor errada, buscando produtos de limpeza para esfregar-se.
Maria, em lágrimas, num pulo voltou para 2020. Pegou sua bolsa e saiu sem avisar pra onde.
Passado algumas horas, chegou com um pacote caprichosamente embalado e o guardou em silêncio. E assim ficou por um tempo. Toda mistério.
Meses depois, no chá de bebê da filha, levou o presente.
A boneca que em suas infâncias não tiveram, mas que a neta poderia brincar.
Mãe e filha se abraçaram, a neta da barriga sentia tudo.
"Daqui a pouco tempo, quando ela sorrir ao se olhar no espelho, serei eu a presenteada."
Disse Maria, a avó.
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toda história é tendenciosa,
toda história, por mais que se disfarce, tem um propósito. escancaro nessas linhas, alguns dos meus.
Disseram que Iracema entrou na faculdade. Hoje será sua primeira aula.
A menina estuda tanto que o cacique Irapuã decidiu que será a responsável por registrar e proteger os saberes do nosso povo nesse espaço.
A gente sabe que precisa estar em todos os lugares, senão eles acabam conosco, como vem fazendo há centenas de anos, desde as invasões.
Mas a gente resistiu. Com muita luta e muita festa.
Somos suas sementes.
Aliás, preciso ir agora, já é hora de fazer o pirão pra celebração dessa noite. Dançaremos com nossos ancestrais para comemorar a notícia.
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toda história é tendenciosa,
toda história, por mais que se disfarce, tem um propósito. escancaro nessas linhas, alguns dos meus.
meses na atrofia do corpo
hiperventilando a mente
minuto a minuto
ansiando lampejo
angústias dançam passos passados
cenário redemoinho de memórias quebradiças
machucando presente
moendo vidas em tempo suspenso
não me espere distraída pra morte*
a extinção
me funga o cangote
no terreno da dúvida
planto um futuro
(jm)
*referência a canção de Otto - "Distraída pra Morte" (gravada no álbum Samba pra Burro, 1998).
*exercício a partir da oficina "luz, câmera e poesia" com luiza romão, lais aranha e renata pegorer em jul/2020.