quinta-feira, 27 de maio de 2021

| Amélia* |

 

Certa em fazer tanta exigência

e em questionar o que você me faz.

Você bem sabe o que é consciência,

não vem dizer que nasceu incapaz


Você só quer folga e limpeza,

tudo que você suja me traz?

Ai meu Deus, quem conhece a Amélia?

Aquela sim é que é prafrentex


As vezes tinha a peixeira do lado

E achava bonito não ter o que temer

e quando via alguém contrariado

dizia: e aí, o que ce vai fazer?


Amélia gostava do corpo e da idade

Amélia vivia feliz de verdade

É, você só quer folga e limpeza

tudo que você suja me traz?


Ai meu Deus me apresenta a Amélia

Aquela sim é que é prafrentex


Amélia gostava do corpo e da idade

Amélia vivia feliz de verdade!




por Janaína Moitinho



***


exercício/paródia feita pro Ateliê de Escrita: Poesia de Luta na América Latina com Jeff Vasques pelo Sesc Campinas, maio/2021.


* " Ai! que saudade da Amélia" - música original composta por Mário Lago e Ataulfo Alves.



***

quarta-feira, 17 de março de 2021

| mergulho e milagre |

mergulho nas dobras do tempo

assistindo quem fui

nos tantos encontros solares


na superfície do agora

um choque de temperaturas

e o alarme das faltas

nesse cenário que arde


mergulho de novo

e de novo

pois só o movimento cura

e a esperança viva há de ser bálsamo e milagre. 


(jm)


17/03/2021

_ 1 ano em isolamento _

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

| corpo-sangue |

 o corpo vivo

sangrando em excesso

pede socorro


o corpo aparentemente vivo

morde toda esperança 

que vê

alimento pouco para 

não se partir


corpo que nada cabe

corpo que nunca coube


corpo que se vende adulto

em flash, passo

porte e casca

mas por dentro infante 

perdido chora

sem colos, risos 

nem rumos


corpo que tanto se empresta

se esforça

se curva

se aperta


corpo que não sonha 

porque não dorme


corpo cansaço de luta muita

clama festa de almas e luzes 

a dançar


corpo corpo corpo  

corpo disparadeiro

corpo mar

corpo onda

inundação


corpo tão nu

corpo meu

corpo sagrado 

que carrego


corpo de quem ora

aterra

banha

geme

e abraça


(jm)

out/2020 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

| proletária |

 

ter a interdição como companheira da vida


na infância por justificativa da responsabilidade ausente


na juventude por alegada falta de independência e juízo


na vida adulta, com todos os requisitos anteriores

falta energia, saúde, rebeldia e vontade.

somos o ser que se esquece a que veio.


vivemos pra reproduzir caminhos já idos

dos nossos que tanto já se cansaram

pegar o bastão deixado 

e correr

obedecer

amansar 

se conformar

pra pagar o teto e não morrer de fome.


esperando o próximo

que chega

assume o bastão

e também se vai.


(jm)


| devaneios |

 

na tormenta do agora

o invisível se mistura 

e grita os segredos que tanto guardava


seu ouvido não absorve os ruídos que se multiplicam

e bagunçam o entendimento

que nunca existiu


os corpos rodopiam

nos planos confusos

e sem donos


sonhando outras realidades

certezas vividas em visagens


tudo é caos

negação

e súplica


mesmo os que acreditam na força divina

sabem que isso não é mais um teste

uma mera prova de aptidão aos encarnados


mas o fim

o ruir 

de tudo


o vazio que se encheu

de nós


(jm)


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

| Miniconto - Afrodiaspórico |

Era uma vez, Maria.

Mulher adulta tomada de euforia e ansiedade por uma notícia recente.

Desde então, Maria passava muitas horas lembrando da menina que foi.

Pensava também nas infâncias dos cinco filhos, hoje já grandes.

Nesse passeio com as memórias, lembrou-se das bonecas que tinham. Avistou a cena da primogênita ainda infante, chorando copiosamente dizendo que havia nascido com a cor errada, buscando produtos de limpeza para esfregar-se.


Maria, em lágrimas, num pulo voltou para 2020. Pegou sua bolsa e saiu sem avisar pra onde.

Passado algumas horas, chegou com um pacote caprichosamente embalado e o guardou em silêncio. E assim ficou por um tempo. Toda mistério.


Meses depois, no chá de bebê da filha, levou o presente.

A boneca que em suas infâncias não tiveram, mas que a neta poderia brincar.

Mãe e filha se abraçaram, a neta da barriga sentia tudo.


"Daqui a pouco tempo, quando ela sorrir ao se olhar no espelho, serei eu a presenteada."

Disse Maria, a avó.



---



toda história é tendenciosa,

toda história, por mais que se disfarce, tem um propósito. escancaro nessas linhas, alguns dos meus.


janaína moitinho     _______________       sp, outubro de 2020


obs: exercício feito para compor avaliação em disciplina ministrada por Milton Cunha na pós-graduação em Relações Étnico-Raciais da UCAM.

| Miniconto - Povos da mata |


Disseram que Iracema entrou na faculdade. Hoje será sua primeira aula.

A menina estuda tanto que o cacique Irapuã decidiu que será a responsável por registrar e proteger os saberes do nosso povo nesse espaço. 

A gente sabe que precisa estar em todos os lugares, senão eles acabam conosco, como vem fazendo há centenas de anos, desde as invasões.

Mas a gente resistiu. Com muita luta e muita festa.

Os encantados nos protegem e mostram as armas que devemos usar.

Somos suas sementes.


Aliás, preciso ir agora, já é hora de fazer o pirão pra celebração dessa noite. Dançaremos com nossos ancestrais para comemorar a notícia. 




---



toda história é tendenciosa,

toda história, por mais que se disfarce, tem um propósito. escancaro nessas linhas, alguns dos meus.


janaína moitinho     _______________       sp, outubro de 2020
obs: exercício feito para compor avaliação em disciplina ministrada por Milton Cunha na pós-graduação em Relações Étnico-Raciais da UCAM.