domingo, 13 de julho de 2014

[O texto que deu nome ao blog]


Através de amigos em comum, esse texto me chegou aos olhos (e coração):

Panflêto Inútil

A solidão reconhece-se aos poucos.
Às vezes é tarde demais quando se a percebe.
Está no não sorrir pro porteiro, no edifício.
Está no cigarro queimando na boca.
Na hora exata em que não se atende ao chamado.
Na preguiça da manhã.
Atravessar o túnel vazio, de noite.
Amar os gatos.
E não sorrir por inteiro no carnaval.
Não sorrir por inteiro jamais.
Ficar de pijama até tarde.
Saber-se só na manhã, e gostar disso.
E ter surtos de saudade apaziguados num telefonema, de tarde.
E saciar-se nele
E logo sentir-se pleno ao bom dia do jardineiro,
da môça da farmácia, do gari.
A solidão reconhece-se olhando pro céu,essa bobagem sem fim.
Nas horas paradas de fazer a barba. No auto flagelo.
“ Não flagelarás ninguém”, deveria ter dito.
E na solidão, o flagelado é você.
Olhando a urina no vaso,
Relendo Rimbaud no sofá
Passando manteiga no pão
Contando segredo ao garçom.
A solidão reconhece-se no casamento da prima ruiva.
No porre tomado ali.
No esquecer –se as palavras da mãe, da avó e do pai.
Nas horas a fixar-se em você, em cravos, estrias, em poros abertos.
Está na cigarra e não na formiga.
No tigre, e nunca no lôbo.
Na tartaruga do mar,
No retrato,
No autista,
No meio do mato.
Está na óstia da primeira comunhão.
No vírus cruel dos sangues.
Na hora de escovar os dentes
Na hora de sonhar também.
Está no homem de terno da ponte -aérea.
Na demonstração dos métodos de segurança da môça aeromoça.
No ganido do cãozinho que saiu da toca,
Na mulher cujo filho morreu,
Na presidência de uma república.
Na overdose de pó,
No sorriso de Elis Regina,
No Farol da Barra,
No poema, na ressaca e em Deus.
Reconhece-se na espera pelo amante e logo depois do gôzo.
E na rosa colhida,
Na hibernação do urso,
No cofre do banco ,
Na cadeira vazia,
Nas migrações em massa,
No ovo.
Em Narciso, Medéia e Pierrô.
Em Chaplin, em Van Gogh, em Greta Garbo.
A solidão está na meninice e também na velhice das gentes.
No leito final, cheio de flores.
Caixa eletrônico, celular, células.
As células são a própria solidão ladeada por outras solidões.
Unidas, formando o tédio e sós.
O casamento dos homens é a própria solidão,
O não estar no grupo: um retirar-se.
Duras, Graciliano Ramos, Kazuo.
A solidão é como no início de tudo.
O outro é a explosão de vida e de dor.
Você é a pulsão sozinha de um milagre sem nome,
Que orbita em torno de infinitas solidões.
Girando, sozinho.
Reconhece-se no prazer que o toque da sêda nos causa ao vestir.
Na hora do assalto à mão armada, e na primeira masturbação.
Quando se chega ao topo do môrro, e quando se cai de joelhos.
Ao acender uma vela,
Ao maldizer um patrão,
Ao se regar uma planta,
Ao desistir-se do amor.
Defronte ao espelho,
Atrás da Matriz,
No Belo Horizonte,
Na catástrofe, qualquer uma.
A solidão se aconchega na prece, na reza e na maldição.
É a avó quando costura,
O lavrador e seu cavalo,
A menina menstruando,
O soldado da guerra,
De novo, o poema.
O cacto, a tartaruga,
A estrêla, a pipa no céu,
Ranho de nariz, sapos.
Sapos são solitários. Acho.
E pessoas.
Mas em pessoas, a solidão dói mais.

(Mateus Nachtergaele, 28 de janeiro de 2013)

 O trecho:

 "Você é a pulsão sozinha  de um milagre sem nome,
Que orbita em torno de infinitas solidões.
Girando, sozinho."

 reverberou muito em mim, muito.

Pedi autorização ao Mateus, e carinhosamente ele permitiu que eu publicasse aqui. Até para que mais pessoas possam ser tocadas, assim como eu.

Pra mim Arte é isso, um constante "salvar" vidas, a de quem faz, se expressa, e as daqueles que a contemplam, que são atingidos e se sentem representados, de certa forma lidos, desvendados. Grata por toda inspiração do Mateus, e também pela generosidade em permitir-me publicar esse texto feito por ele, mas que já sinto tão (m)eu.

Leiam, sintam, inspirem-se.


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