síntese reflexiva após o curso de extensão: “casa redonda – uma experiência em educação” no instituto singularidades
antes de tudo,
agradeço as experiências vividas e compartilhadas entre (e com)
cada um aqui.
preciso confessar
algo: as questões que me movem e me fizeram buscar esse
aprofundamento não foram respondidas durante o curso. sinto que
elas se ampliaram... e eu sou ainda mais grata por isso.
uma resolução
ou verdade que se imponha "absoluta" engessa as múltiplas
possibilidades e jeitos de se fazer algo. essa mesma verdade ou
"modelo pedagógico" se meramente transferido a qualquer
outro habitat educacional estará desconsiderando o quão viva cada
escola, cada comunidade dessas é, e está. e ao passo que se
ambiciona a aproximação (ou apropriação) de um modelo como se
fosse questão meramente de "transferi-lo" técnica ou
cientificamente, ignora toda plasticidade das relações humanas e
cada fragmento de história, tempo, espaço, energia e sinergia
envolvidos que a torna única e irreproduzível. a verdade costuma
ser singular. dita imutável. cimentada nos livros e assim pretendida
nas mentes e práticas impostas hierarquicamente quando pensamos a
estrutura invisível que busca conduzir um espaço e suas práticas
de educação. as perguntas em geral vem no plural. implicam sair do
lugar pra buscar elementos, exemplos e diferentes explicações. são
diversas e por vezes até divertidas. o extremo oposto da enrijecida
e séria "verdade".
todos já ouvimos
falar (e vender) sobre a tal "receita mágica". e é comum
que a busca seja essa. a dose exata de ingredientes que compõe a
mistura deliciosa para os sedentos paladares alheios. penso que sendo
essa a intenção inicial já nos distanciamos da essência da
educação humana e libertária que é tão bem retratada na casa
redonda e algumas outras poucas dezenas de espaços revolucionários
em educação no país. mas os ingredientes e sabores originais
implicam processos que outras 'escolas-cozinhas' esquecem de
considerar. a fórmula talvez seja não ter fórmula única. não
achar que o "prato está pronto" e não se incomodar com
isso, continuar mexendo a panela, provando aqui e ali pra acompanhar
a apuração do tempero ao caldo todo.
nessa metáfora,
a "panela" da casa redonda está sempre no fogo...
fervendo. todos ali valorizam cada ingrediente envolvido no preparo,
e cuidam pra equilibrá-los. durante essa fervura, há quem chegue
pra provar, e gostando já sugira que apague, estabilize. sirva. mas
a meu ver, a busca é incessante e essa panela sempre estará
recebendo elementos novos, transformando sabores. e revesando os
braços que a mexem e os escolhem.
para além da
receita, acredito que é preciso olhar atenta e sensivelmente também
todo cenário. a rua. a casa. o quintal. o jardim. a horta. a
cozinha. o fogão. a panela. as pessoas. e os semblantes de quem
está participando da tarefa. alimentando e sendo alimentado. o que
de sublime, afetivo e poético agrega esse fazer. o que a interação
de todos os elementos resulta.
o que pude
vislumbrar foi práxis. algo que começou e continua contando com
pesquisa, trabalho e reflexão, de uma, de dez, de cem ou mais
elementos vivos e contraditórios que a compõe. algo que nunca negou
o sagrado, o mistério, as intuições e vontades pulsantes.
ressalto o
divino,
a criança,
a natureza,
o brincar,
a escuta,
o esforço de uma
gigante
a força de um
coletivo sensível
e o profundo
respeito que permeia a alquimia desses anos todos em exercício.
o aroma do que é
feito na casa redonda está pelo ar... e cheira bem, os vizinhos
sentem. dá água na boca. mas infelizmente há mais bocas famintas
do que panelas e mãos a preparar o alimento. é preciso ativar
outras casas, hortas, cozinhas, panelas e pessoas que também
"esqueçam" as receitas mágicas e não se amedrontem com a
fervura nem com o tempo e o processo desse cozimento todo.
não esquecerei o
que vivi e aprendi nesse tempo compartilhado aqui. e o sabor do que
provei está gravado em meu palato, me faz querer não desistir de
cozinhar também.
janaína
moitinho
são paulo, 12
de junho de 2018
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