sexta-feira, 3 de abril de 2015

3 de abril


São Paulo, 3 de abril de 2015.

À pessoa presente,

<É difícil, mas alguma hora é preciso começar a estudar e falar da própria história.
Aqui o ensaio da parte estruturante da minha. Sobre ela e nós, em seu aniversário.>

Mães dão luz aos filhos e os fazem literalmente, os holofotes se viram e por muito tempo é sacrifício, sacrifício, sacrifício.
Aos filhos, luz. Pra si, sombras.
Primeiro entregam o corpo, pensamento, depois o sono, o tempo. mais pra frente os anos passam e são esses e muito mais.
Não que se esqueçam das próprias vidas mas é frequente colocar-se em último, até mesmo afastar-se dos planos e sonhos pra ajudar no vôo das crias. As vitórias são comemoradas como tuas (e são), as derrotas choradas juntas mas os novos meios pensados e realizados assim também. É quem torce, patrocina e viabiliza muitos feitos, tão nossos.
À minha agradeço cada socorro, mesmo os que não pedi ou notei precisar, eles sempre vieram. Desde as fantasias nas festinhas de escola, o trato no cabelo, a meia calça que faltou na última hora, o dinheiro do táxi, o fogão que sempre cozinhou amor, até as vezes que me decifra com maestria (que não a toa começa com esse conjunto de letras), enxergando a dor profunda que em vão tento ocultar. Mães sabem tudo, não do mundo mas de seus filhos. Sim, não duvide, perto ou longe, elas sempre souberam, sabem, saberão. Sabem porque sentem, se não contam é pra respeitar a sua ilusão de novidade ou não impedir o tom de segredo ao confessar.
Hoje vejo o que esse nosso percurso significou, o quão fundamental é a presença, os laços e as raízes.
Se tenho ou tive algum brilho reconheço reflexo de quem me lançou, na vida, nos livros, artes, debates e reflexões. Crescer num ninho de amor cercada por livros, música e amigos alimentou mais que qualquer item de padaria que por ventura faltou.
Mãe, fizeste-me "crer ser", o ser que sou sem você seria certamente outro (e duvido que melhor).
Então comemorando muito sua existência agradeço tudo que foi, que é e pelo que virá.
Me desculpo por muito também, os feitos e não feitos destes meus 30, mas sei que as falhas e faltas -nossas- também embelezam o processo. São eles, o amor e o erro os ingredientes que nos fazem singular. Me desculpo de novo e ainda mais por me dizer (e sentir) poeta, mas ainda não saber parir nem mesmo uma poesia digna de ti.




ps: A tentativa de escrever é expressar aquilo que a boca ingrata nunca consegue lhe falar, um pouco de gratidão à quem mais merece por ser quem me fez. Hoje assumo mudança, viro os holofotes e devolvo um pouco a luz que sempre me deu. Saiba, no palco da minha vida -mesmo que eu não diga- quem reluz é você.


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